“Amanhã sai para combater Amalec”

*o combate espiritual

1. O grande combate

Toda a história do mundo é vista, nas Escrituras, como uma grande luta, um verdadeiro e real combate espiritual, e a confirmação desta realidade está no último livro da Bíblia, o Apocalipse.
"Aconteceu então uma batalha no céu: Miguel e seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou juntamente com os seus anjos, mas foi derrotado, e no céu não houve mais lugar para eles. Esse grande dragão é a antiga Serpente, é o chamado Diabo ou Satanás. É aquele que seduz todos os habitantes da terra. O Dragão foi expulso para a terra, e os Anjos do Dragão foram expulsos com ele” (Ap 12,7-9).
Podemos fazer a leitura desta luta como um conflito de mentalidades: ou Deus ou o homem está no centro. Atrás está o adversário que, sem cessar, trama insídias contra o homem, ocultando-lhe a verdade por meio de máscaras.
Somos diariamente chamados a combater Amalec. Toda a vida de Jesus foi uma luta formidável, uma tomada de posição decidida, no grande combate contra o inimigo.
Sabemos que o Espírito Santo conduziu Jesus Cristo numa luta permanente contra o “príncipe desse mundo” sinalizando assim que esta seria também uma tarefa da Igreja e de todos nós. Esta luta contínua de Jesus é mais evidenciada em dois episódios: o deserto e o Calvário.

2. Jesus tentado no deserto: a luta das escolhas

Logo depois do batismo, o Espírito Santo “impeliu” Jesus ao deserto para lutar com Satanás. No Antigo Testamento, Satanás é o Mentiroso, o Tentador, aquele que busca desviar o homem de Deus e que semeia a divisão.
Os profetas tinham dito que iria haver uma tremenda luta entre o Salvador, o Messias e o Príncipe do Mal. No deserto ocorreu esta luta e no deserto, Cristo se mostrou mais forte do que o Mal.
Os evangelistas Mateus, Marcos e Lucas trazem o episódio de Jesus tentado pelo demônio no deserto: Mateus 4,1-11, Marcos 1, 12-13 e Lucas 4,1-13
O texto sobre as tentações diabólicas que Jesus venceu por nós, por cada homem e cada mulher desta terra, é densa de significado. Os autores sagrados se referem a três tentações, três pedidos feitos pelo inimigo: a tentação da abundância, a tentação do prestígio, a tentação do poder e da riqueza.
Com efeito, estes pedidos são o símbolo de todas as tentações humanas, das crises, dos sofrimentos da humanidade.

a) O deserto - o campo de luta

Jesus foi ao deserto para deixar-se tentar pelo demônio, e começou fazendo um jejum de quarenta dias, que evocam a marcha heróica, extenuante, do povo de Israel pelo deserto que foi até o limite das próprias forças.
O deserto é o lugar da solidão, da secura, da fome, como também do silêncio e da oração. Jesus se refugiou na solidão e jejuou, fez penitência, enfrentou as dificuldades do lugar, suportou o cansaço, mas rezou em silêncio.
O deserto também é o lugar das escolhas, porque o homem tem condições ideais para, nele, fazer a si mesmo as perguntas existenciais mais fundamentais e dramáticas.
Jesus estava para começar sua vida pública e, aproveitando-se deste longo retiro no silêncio e na solidão, ele quer decidir-se sobre seu programa: ele não pensa em si, ele não se preocupa com o próprio corpo, ele não tirará proveito do seu poder de fazer milagres, mas será o Messias humilde, obediente, que escuta a palavra de Deus.

b) Jesus luta por nós

Ele respondeu ao tentador de três modos:

  1. Apoiando-se na palavra de Deus: "O homem não vive só de pão, mas... de tudo aquilo que sai da boca de Javé” (Dt 8,3).
  2. Recusando a via fácil dos milagres espetaculares e escolhendo a via escondida e simples do dever cotidiano: "Não tentem a Javé seu Deus” (Dt 6,16).
  3. Recusando todo e qualquer poder terreno, não querendo aceitar nenhum sucesso mundano, não querendo riquezas, apenas proclamando o absoluto primado de Deus, que está na raiz de tudo aquilo que é justo e reto: "É a Javé seu Deus que você temerá; sirva a ele” (Dt 6,13).

Jesus venceu por nós, escolhendo a via correta contra as insídias satânicas e rejeitando uma vida equivocada. Ele sentiu na pele as tentações, mas para desfazer de vez as seguranças eventuais provenientes das prerrogativas e privilégios que poderiam ser atribuídos a ele como "Rei messiânico” e de todas as conveniências que a fama de taumaturgo lhe poderia oferecer.
O texto de Lucas termina assim: "Tendo esgotado todas as formas de tentação, o diabo se afastou de Jesus, para voltar no tempo oportuno". Jesus foi tentado no começo da sua vida pública, e isto já era uma profecia sobre tudo o que deveria acontecer a ele no fim, no momento da última e maior tentação, quando o pregaram na cruz. Sua vida transcorreu entre duas tentações, e foi toda ela marcada com o sinal da prova.

3. A luta de Jesus no Calvário

A última grande provação de Jesus nos ajudará a compreender melhor a primeira.
Jesus foi pregado à cruz: "O povo permanecia aí, olhando. Os chefes, porém, zombam de Jesus, dizendo: “A outros ele salvou. Que salve a si mesmo, se é de fato O Messias de Deus, o Escolhido!” Os soldados também caçoavam dele. Aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre, e diziam: “Se tu és o rei dos judeus, salva a ti mesmo!” Acima dele havia um letreiro: “Este é o Rei dos judeus”.
Um dos criminosos crucificados a seu lado o insultava, dizendo: “Não és tu o Messias? Salva a ti mesmo e a nós também!” (cf. Lc 23,35-39).

a) Novamente três tentações

É preciso notar a repetição do número três: três foram as tentações no deserto, no início da vida pública de Jesus, e três as provocações que representavam a voz de Satanás, três insultos lançados contra Jesus quando ele estava prestes a morrer.

  1. "O povo permanecia aí, olhando. Os chefes, porém, zombavam de Jesus, dizendo: 'A outros ele salvou. Que salve a si mesmo, se é de fato o Messias de Deus, o Escolhido!"' (v. 35).
  2. "Os soldados também caçoavam dele... salva a ti mesmo!"' (v.v 36-37).
  3. E o malfeitor: "Não és tu o Messias? Salva a ti mesmo e a nós também!" (v. 39).

É fácil perceber o que havia de mágoa, de dramático, nestas provocações. No deserto, o diabo tinha procurado por todos os meios fazê-lo desistir do seu programa de Filho obediente, e de uma obediência total ao Pai. Agora ele é tentado na sua própria missão, no programa que ele mesmo tinha escolhido. Ele é, de maneira insidiosa, convidado a tirar proveito do seu poder para evitar a própria morte: "Força, vamos, use o poder que você tem! Se você quer que nós creiamos em você, dê mostras deste poder, se é que você o tem. Então nós creremos no seu Evangelho. Mas, se você é o que diz, salve-se a você mesmo!"

b) Jesus vence mais uma vez

Como é terrível este sofisma que Satanás procurou inocular no espírito de Jesus!
Mas, se ele descesse da cruz como é que ele poderia refletir a imagem de um Deus que escolheu a morte por amor dos homens? Ele refletiria, sem dúvida, a imagem de um Deus poderoso, de um Deus vitorioso, cheio de sucesso, de um Deus do qual nós podemos servir-nos para alimentar nossas ambições.
Mas ele não revelaria mais a imagem, única em toda a história e que o ser humano jamais teria imaginado, do Deus que serve, que ama o homem até ao ponto de despojar-se de tudo por causa deste amor, e que leva este amor ao extremo de aceitar o próprio aniquilamento.
Jesus, naturalmente, não desceu da cruz. Foi assim que ele venceu, como já havia vencido no primeiro embate contra a tentação, no deserto, ao citar passagens da Escritura que deixavam bem claro o primado absoluto de Deus e da sua Palavra.

4. Amanhã sai para combater Amalec

a) Lutar é vigiar

Jesus passou pelas tentações e venceu-as. Desta forma, ele nos ensinou que a vida cristã é em si mesma, uma luta séria, perigosa, cujo fim é incerto.
Por isso a Igreja, durante o tempo litúrgico chamado de Quaresma, empenha-se em fazer com que todos recuperem o sentido da vida como defesa contra a tentação, lembrando a todos o papel da vigilância. No Novo Testamento, podemos perceber que volta a todo instante a exortação: "Vigiem". Em concreto, vigilância significa sobriedade, abstinência, capacidade de renunciar àquelas coisas que nos tornam obtusos e surdos à palavra de Deus, pondo-nos a salvo das tentações.
O período da Quaresma, de fato, é constituído, todo ele, por uma tensão rumo ao mistério central da Páscoa, mistério ao qual nos associamos com o batismo, e que pode penetrar sempre mais profundamente em nós através da conversão cotidiana.

b) As práticas da vigilância

As obras sugeridas pela Igreja dentro do caminho da Quaresma, as obras que exprimem vigilância, o estado de alerta diante do inimigo, são a oração, a escuta prolongada da Palavra, sobretudo na liturgia, o silêncio, o recolhimento, o jejum, e a ascese.

c) O jejum

Nós temos uma certa dificuldade com o jejum, estranhamos até a palavra, e talvez esta dificuldade tenha algo a ver com um texto do profeta Isaías:
"Não é jejuando dessa forma que farão chegar lá em cima a voz de vocês. Vejam! O jejum que eu aprecio, o dia em que uma pessoa procura se humilhar, não deve ser desta maneira: curvar a cabeça como se fosse uma vara, deitar de luto na cinza... É isso que vocês chamam de jejum, um dia para agradar a Javé?
“O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente" (Is 58,4b-7). O profeta faz uma advertência ao povo, mostrando que o Senhor deseja o jejum da caridade.
Sem dúvida alguma, o objetivo do jejum é o amor, a caridade em prol de todos os irmãos, porque a caridade é a plenitude da vida cristã, e o seu exercício é um modo esplêndido de preparar-se para a Páscoa.

d) A luta é o jejum

Mas também é preciso dizer que o jejum corpóreo, físico, tem uma importância real, embora subordinada. Santo Ambrósio escreveu: "Virá para nós o dia da festa, e ele já está próximo... Nossa vitória é a cruz de Cristo, nosso triunfo é a Páscoa do Senhor Jesus. Mas Cristo combateu para vencer não porque tivesse necessidade defender-se, mas para nos ensinar o modo de enfrentar o combate. A nossa luta é o jejum. O Salvador também jejuou, ... e sujeitou-se a isto a fim de romper os laços do tentador". Santo Ambrósio continua ainda, noutra parte do sermão, exaltando o significado ascético e cristão do jejum: "Grande é a força do jejum! É uma luta tão maravilhosa, que o ato de jejuar compraz ao próprio Cristo; é tão eficaz, que eleva o homem até o céu... Que coisa, de fato, é o jejum senão a substância e o retrato da vida celeste? O jejum é a refeição da alma, é um alimento espiritual, é a vida dos anjos, é a morte do pecado, é o aniquilamento dos delitos, é um meio de salvação, é a raiz da graça, é o fundamento da caridade" (do tratado Elias e o jejum, nn. 1.2.~).
Diante desta exortação, podemos perguntar-nos: que significado tem exatamente o jejum para nós, e no que ele consiste, embora a Igreja, em nossos dias, tenha reduzido muito as rigorosas exigências do passado?
Devemos recuperar, porém, o significado que o jejum deve ter para nós, que é propriamente a sua utilidade ascética, como um exercício de santificação.
O jejum pode ser aplicado a muitos elementos da nossa vida moderna diária, e cada um de nós pode vivê-lo com simplicidade.
Se acrescentarmos a isto os momentos de recolhimento, de solidão, de oração mais intensa, veremos que todas estas coisas se relacionam muito bem, e que elas vão criando em nós, paulatinamente, o gosto pela disciplina do espírito, formando o ambiente, o contexto adequado para que tenhamos uma autêntica vida espiritual.
Uma disciplina que tempera o homem interior e o torna capaz, pronto para enfrentar as lutas da vida, e fazer dela um ato real de serviço e de disponibilidade que, na Igreja, pode chegar até a perseguição e o martírio.

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