*o combate espiritual 1. O grande combate Toda a história do mundo é vista, nas Escrituras, como uma grande luta, um verdadeiro e real combate espiritual, e a confirmação desta realidade está no último livro da Bíblia, o Apocalipse. 2. Jesus tentado no deserto: a luta das escolhas Logo depois do batismo, o Espírito Santo “impeliu” Jesus ao deserto para lutar com Satanás. No Antigo Testamento, Satanás é o Mentiroso, o Tentador, aquele que busca desviar o homem de Deus e que semeia a divisão. a) O deserto - o campo de luta Jesus foi ao deserto para deixar-se tentar pelo demônio, e começou fazendo um jejum de quarenta dias, que evocam a marcha heróica, extenuante, do povo de Israel pelo deserto que foi até o limite das próprias forças. b) Jesus luta por nós Ele respondeu ao tentador de três modos: Jesus venceu por nós, escolhendo a via correta contra as insídias satânicas e rejeitando uma vida equivocada. Ele sentiu na pele as tentações, mas para desfazer de vez as seguranças eventuais provenientes das prerrogativas e privilégios que poderiam ser atribuídos a ele como "Rei messiânico” e de todas as conveniências que a fama de taumaturgo lhe poderia oferecer. 3. A luta de Jesus no Calvário A última grande provação de Jesus nos ajudará a compreender melhor a primeira. a) Novamente três tentações É preciso notar a repetição do número três: três foram as tentações no deserto, no início da vida pública de Jesus, e três as provocações que representavam a voz de Satanás, três insultos lançados contra Jesus quando ele estava prestes a morrer. É fácil perceber o que havia de mágoa, de dramático, nestas provocações. No deserto, o diabo tinha procurado por todos os meios fazê-lo desistir do seu programa de Filho obediente, e de uma obediência total ao Pai. Agora ele é tentado na sua própria missão, no programa que ele mesmo tinha escolhido. Ele é, de maneira insidiosa, convidado a tirar proveito do seu poder para evitar a própria morte: "Força, vamos, use o poder que você tem! Se você quer que nós creiamos em você, dê mostras deste poder, se é que você o tem. Então nós creremos no seu Evangelho. Mas, se você é o que diz, salve-se a você mesmo!" b) Jesus vence mais uma vez Como é terrível este sofisma que Satanás procurou inocular no espírito de Jesus! 4. Amanhã sai para combater Amalec a) Lutar é vigiar Jesus passou pelas tentações e venceu-as. Desta forma, ele nos ensinou que a vida cristã é em si mesma, uma luta séria, perigosa, cujo fim é incerto. b) As práticas da vigilância As obras sugeridas pela Igreja dentro do caminho da Quaresma, as obras que exprimem vigilância, o estado de alerta diante do inimigo, são a oração, a escuta prolongada da Palavra, sobretudo na liturgia, o silêncio, o recolhimento, o jejum, e a ascese. c) O jejum Nós temos uma certa dificuldade com o jejum, estranhamos até a palavra, e talvez esta dificuldade tenha algo a ver com um texto do profeta Isaías: d) A luta é o jejum Mas também é preciso dizer que o jejum corpóreo, físico, tem uma importância real, embora subordinada. Santo Ambrósio escreveu: "Virá para nós o dia da festa, e ele já está próximo... Nossa vitória é a cruz de Cristo, nosso triunfo é a Páscoa do Senhor Jesus. Mas Cristo combateu para vencer não porque tivesse necessidade defender-se, mas para nos ensinar o modo de enfrentar o combate. A nossa luta é o jejum. O Salvador também jejuou, ... e sujeitou-se a isto a fim de romper os laços do tentador". Santo Ambrósio continua ainda, noutra parte do sermão, exaltando o significado ascético e cristão do jejum: "Grande é a força do jejum! É uma luta tão maravilhosa, que o ato de jejuar compraz ao próprio Cristo; é tão eficaz, que eleva o homem até o céu... Que coisa, de fato, é o jejum senão a substância e o retrato da vida celeste? O jejum é a refeição da alma, é um alimento espiritual, é a vida dos anjos, é a morte do pecado, é o aniquilamento dos delitos, é um meio de salvação, é a raiz da graça, é o fundamento da caridade" (do tratado Elias e o jejum, nn. 1.2.~).
"Aconteceu então uma batalha no céu: Miguel e seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou juntamente com os seus anjos, mas foi derrotado, e no céu não houve mais lugar para eles. Esse grande dragão é a antiga Serpente, é o chamado Diabo ou Satanás. É aquele que seduz todos os habitantes da terra. O Dragão foi expulso para a terra, e os Anjos do Dragão foram expulsos com ele” (Ap 12,7-9).
Podemos fazer a leitura desta luta como um conflito de mentalidades: ou Deus ou o homem está no centro. Atrás está o adversário que, sem cessar, trama insídias contra o homem, ocultando-lhe a verdade por meio de máscaras.
Somos diariamente chamados a combater Amalec. Toda a vida de Jesus foi uma luta formidável, uma tomada de posição decidida, no grande combate contra o inimigo.
Sabemos que o Espírito Santo conduziu Jesus Cristo numa luta permanente contra o “príncipe desse mundo” sinalizando assim que esta seria também uma tarefa da Igreja e de todos nós. Esta luta contínua de Jesus é mais evidenciada em dois episódios: o deserto e o Calvário.
Os profetas tinham dito que iria haver uma tremenda luta entre o Salvador, o Messias e o Príncipe do Mal. No deserto ocorreu esta luta e no deserto, Cristo se mostrou mais forte do que o Mal.
Os evangelistas Mateus, Marcos e Lucas trazem o episódio de Jesus tentado pelo demônio no deserto: Mateus 4,1-11, Marcos 1, 12-13 e Lucas 4,1-13
O texto sobre as tentações diabólicas que Jesus venceu por nós, por cada homem e cada mulher desta terra, é densa de significado. Os autores sagrados se referem a três tentações, três pedidos feitos pelo inimigo: a tentação da abundância, a tentação do prestígio, a tentação do poder e da riqueza.
Com efeito, estes pedidos são o símbolo de todas as tentações humanas, das crises, dos sofrimentos da humanidade.
O deserto é o lugar da solidão, da secura, da fome, como também do silêncio e da oração. Jesus se refugiou na solidão e jejuou, fez penitência, enfrentou as dificuldades do lugar, suportou o cansaço, mas rezou em silêncio.
O deserto também é o lugar das escolhas, porque o homem tem condições ideais para, nele, fazer a si mesmo as perguntas existenciais mais fundamentais e dramáticas.
Jesus estava para começar sua vida pública e, aproveitando-se deste longo retiro no silêncio e na solidão, ele quer decidir-se sobre seu programa: ele não pensa em si, ele não se preocupa com o próprio corpo, ele não tirará proveito do seu poder de fazer milagres, mas será o Messias humilde, obediente, que escuta a palavra de Deus.
O texto de Lucas termina assim: "Tendo esgotado todas as formas de tentação, o diabo se afastou de Jesus, para voltar no tempo oportuno". Jesus foi tentado no começo da sua vida pública, e isto já era uma profecia sobre tudo o que deveria acontecer a ele no fim, no momento da última e maior tentação, quando o pregaram na cruz. Sua vida transcorreu entre duas tentações, e foi toda ela marcada com o sinal da prova.
Jesus foi pregado à cruz: "O povo permanecia aí, olhando. Os chefes, porém, zombam de Jesus, dizendo: “A outros ele salvou. Que salve a si mesmo, se é de fato O Messias de Deus, o Escolhido!” Os soldados também caçoavam dele. Aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre, e diziam: “Se tu és o rei dos judeus, salva a ti mesmo!” Acima dele havia um letreiro: “Este é o Rei dos judeus”.
Um dos criminosos crucificados a seu lado o insultava, dizendo: “Não és tu o Messias? Salva a ti mesmo e a nós também!” (cf. Lc 23,35-39).
Mas, se ele descesse da cruz como é que ele poderia refletir a imagem de um Deus que escolheu a morte por amor dos homens? Ele refletiria, sem dúvida, a imagem de um Deus poderoso, de um Deus vitorioso, cheio de sucesso, de um Deus do qual nós podemos servir-nos para alimentar nossas ambições.
Mas ele não revelaria mais a imagem, única em toda a história e que o ser humano jamais teria imaginado, do Deus que serve, que ama o homem até ao ponto de despojar-se de tudo por causa deste amor, e que leva este amor ao extremo de aceitar o próprio aniquilamento.
Jesus, naturalmente, não desceu da cruz. Foi assim que ele venceu, como já havia vencido no primeiro embate contra a tentação, no deserto, ao citar passagens da Escritura que deixavam bem claro o primado absoluto de Deus e da sua Palavra.
Por isso a Igreja, durante o tempo litúrgico chamado de Quaresma, empenha-se em fazer com que todos recuperem o sentido da vida como defesa contra a tentação, lembrando a todos o papel da vigilância. No Novo Testamento, podemos perceber que volta a todo instante a exortação: "Vigiem". Em concreto, vigilância significa sobriedade, abstinência, capacidade de renunciar àquelas coisas que nos tornam obtusos e surdos à palavra de Deus, pondo-nos a salvo das tentações.
O período da Quaresma, de fato, é constituído, todo ele, por uma tensão rumo ao mistério central da Páscoa, mistério ao qual nos associamos com o batismo, e que pode penetrar sempre mais profundamente em nós através da conversão cotidiana.
"Não é jejuando dessa forma que farão chegar lá em cima a voz de vocês. Vejam! O jejum que eu aprecio, o dia em que uma pessoa procura se humilhar, não deve ser desta maneira: curvar a cabeça como se fosse uma vara, deitar de luto na cinza... É isso que vocês chamam de jejum, um dia para agradar a Javé?
“O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente" (Is 58,4b-7). O profeta faz uma advertência ao povo, mostrando que o Senhor deseja o jejum da caridade.
Sem dúvida alguma, o objetivo do jejum é o amor, a caridade em prol de todos os irmãos, porque a caridade é a plenitude da vida cristã, e o seu exercício é um modo esplêndido de preparar-se para a Páscoa.
Diante desta exortação, podemos perguntar-nos: que significado tem exatamente o jejum para nós, e no que ele consiste, embora a Igreja, em nossos dias, tenha reduzido muito as rigorosas exigências do passado?
Devemos recuperar, porém, o significado que o jejum deve ter para nós, que é propriamente a sua utilidade ascética, como um exercício de santificação.
O jejum pode ser aplicado a muitos elementos da nossa vida moderna diária, e cada um de nós pode vivê-lo com simplicidade.
Se acrescentarmos a isto os momentos de recolhimento, de solidão, de oração mais intensa, veremos que todas estas coisas se relacionam muito bem, e que elas vão criando em nós, paulatinamente, o gosto pela disciplina do espírito, formando o ambiente, o contexto adequado para que tenhamos uma autêntica vida espiritual.
Uma disciplina que tempera o homem interior e o torna capaz, pronto para enfrentar as lutas da vida, e fazer dela um ato real de serviço e de disponibilidade que, na Igreja, pode chegar até a perseguição e o martírio.
