*o combate espiritual

1. O grande combate

Toda a história do mundo é vista, nas Escrituras, como uma grande luta, um verdadeiro e real combate espiritual, e a confirmação desta realidade está no último livro da Bíblia, o Apocalipse.
"Aconteceu então uma batalha no céu: Miguel e seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou juntamente com os seus anjos, mas foi derrotado, e no céu não houve mais lugar para eles. Esse grande dragão é a antiga Serpente, é o chamado Diabo ou Satanás. É aquele que seduz todos os habitantes da terra. O Dragão foi expulso para a terra, e os Anjos do Dragão foram expulsos com ele” (Ap 12,7-9).
Podemos fazer a leitura desta luta como um conflito de mentalidades: ou Deus ou o homem está no centro. Atrás está o adversário que, sem cessar, trama insídias contra o homem, ocultando-lhe a verdade por meio de máscaras.
Somos diariamente chamados a combater Amalec. Toda a vida de Jesus foi uma luta formidável, uma tomada de posição decidida, no grande combate contra o inimigo.
Sabemos que o Espírito Santo conduziu Jesus Cristo numa luta permanente contra o “príncipe desse mundo” sinalizando assim que esta seria também uma tarefa da Igreja e de todos nós. Esta luta contínua de Jesus é mais evidenciada em dois episódios: o deserto e o Calvário.

2. Jesus tentado no deserto: a luta das escolhas

Logo depois do batismo, o Espírito Santo “impeliu” Jesus ao deserto para lutar com Satanás. No Antigo Testamento, Satanás é o Mentiroso, o Tentador, aquele que busca desviar o homem de Deus e que semeia a divisão.
Os profetas tinham dito que iria haver uma tremenda luta entre o Salvador, o Messias e o Príncipe do Mal. No deserto ocorreu esta luta e no deserto, Cristo se mostrou mais forte do que o Mal.
Os evangelistas Mateus, Marcos e Lucas trazem o episódio de Jesus tentado pelo demônio no deserto: Mateus 4,1-11, Marcos 1, 12-13 e Lucas 4,1-13
O texto sobre as tentações diabólicas que Jesus venceu por nós, por cada homem e cada mulher desta terra, é densa de significado. Os autores sagrados se referem a três tentações, três pedidos feitos pelo inimigo: a tentação da abundância, a tentação do prestígio, a tentação do poder e da riqueza.
Com efeito, estes pedidos são o símbolo de todas as tentações humanas, das crises, dos sofrimentos da humanidade.

a) O deserto - o campo de luta

Jesus foi ao deserto para deixar-se tentar pelo demônio, e começou fazendo um jejum de quarenta dias, que evocam a marcha heróica, extenuante, do povo de Israel pelo deserto que foi até o limite das próprias forças.
O deserto é o lugar da solidão, da secura, da fome, como também do silêncio e da oração. Jesus se refugiou na solidão e jejuou, fez penitência, enfrentou as dificuldades do lugar, suportou o cansaço, mas rezou em silêncio.
O deserto também é o lugar das escolhas, porque o homem tem condições ideais para, nele, fazer a si mesmo as perguntas existenciais mais fundamentais e dramáticas.
Jesus estava para começar sua vida pública e, aproveitando-se deste longo retiro no silêncio e na solidão, ele quer decidir-se sobre seu programa: ele não pensa em si, ele não se preocupa com o próprio corpo, ele não tirará proveito do seu poder de fazer milagres, mas será o Messias humilde, obediente, que escuta a palavra de Deus.

b) Jesus luta por nós

Ele respondeu ao tentador de três modos:

  1. Apoiando-se na palavra de Deus: "O homem não vive só de pão, mas... de tudo aquilo que sai da boca de Javé” (Dt 8,3).
  2. Recusando a via fácil dos milagres espetaculares e escolhendo a via escondida e simples do dever cotidiano: "Não tentem a Javé seu Deus” (Dt 6,16).
  3. Recusando todo e qualquer poder terreno, não querendo aceitar nenhum sucesso mundano, não querendo riquezas, apenas proclamando o absoluto primado de Deus, que está na raiz de tudo aquilo que é justo e reto: "É a Javé seu Deus que você temerá; sirva a ele” (Dt 6,13).

Jesus venceu por nós, escolhendo a via correta contra as insídias satânicas e rejeitando uma vida equivocada. Ele sentiu na pele as tentações, mas para desfazer de vez as seguranças eventuais provenientes das prerrogativas e privilégios que poderiam ser atribuídos a ele como "Rei messiânico” e de todas as conveniências que a fama de taumaturgo lhe poderia oferecer.
O texto de Lucas termina assim: "Tendo esgotado todas as formas de tentação, o diabo se afastou de Jesus, para voltar no tempo oportuno". Jesus foi tentado no começo da sua vida pública, e isto já era uma profecia sobre tudo o que deveria acontecer a ele no fim, no momento da última e maior tentação, quando o pregaram na cruz. Sua vida transcorreu entre duas tentações, e foi toda ela marcada com o sinal da prova.

3. A luta de Jesus no Calvário

A última grande provação de Jesus nos ajudará a compreender melhor a primeira.
Jesus foi pregado à cruz: "O povo permanecia aí, olhando. Os chefes, porém, zombam de Jesus, dizendo: “A outros ele salvou. Que salve a si mesmo, se é de fato O Messias de Deus, o Escolhido!” Os soldados também caçoavam dele. Aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre, e diziam: “Se tu és o rei dos judeus, salva a ti mesmo!” Acima dele havia um letreiro: “Este é o Rei dos judeus”.
Um dos criminosos crucificados a seu lado o insultava, dizendo: “Não és tu o Messias? Salva a ti mesmo e a nós também!” (cf. Lc 23,35-39).

a) Novamente três tentações

É preciso notar a repetição do número três: três foram as tentações no deserto, no início da vida pública de Jesus, e três as provocações que representavam a voz de Satanás, três insultos lançados contra Jesus quando ele estava prestes a morrer.

  1. "O povo permanecia aí, olhando. Os chefes, porém, zombavam de Jesus, dizendo: 'A outros ele salvou. Que salve a si mesmo, se é de fato o Messias de Deus, o Escolhido!"' (v. 35).
  2. "Os soldados também caçoavam dele... salva a ti mesmo!"' (v.v 36-37).
  3. E o malfeitor: "Não és tu o Messias? Salva a ti mesmo e a nós também!" (v. 39).

É fácil perceber o que havia de mágoa, de dramático, nestas provocações. No deserto, o diabo tinha procurado por todos os meios fazê-lo desistir do seu programa de Filho obediente, e de uma obediência total ao Pai. Agora ele é tentado na sua própria missão, no programa que ele mesmo tinha escolhido. Ele é, de maneira insidiosa, convidado a tirar proveito do seu poder para evitar a própria morte: "Força, vamos, use o poder que você tem! Se você quer que nós creiamos em você, dê mostras deste poder, se é que você o tem. Então nós creremos no seu Evangelho. Mas, se você é o que diz, salve-se a você mesmo!"

b) Jesus vence mais uma vez

Como é terrível este sofisma que Satanás procurou inocular no espírito de Jesus!
Mas, se ele descesse da cruz como é que ele poderia refletir a imagem de um Deus que escolheu a morte por amor dos homens? Ele refletiria, sem dúvida, a imagem de um Deus poderoso, de um Deus vitorioso, cheio de sucesso, de um Deus do qual nós podemos servir-nos para alimentar nossas ambições.
Mas ele não revelaria mais a imagem, única em toda a história e que o ser humano jamais teria imaginado, do Deus que serve, que ama o homem até ao ponto de despojar-se de tudo por causa deste amor, e que leva este amor ao extremo de aceitar o próprio aniquilamento.
Jesus, naturalmente, não desceu da cruz. Foi assim que ele venceu, como já havia vencido no primeiro embate contra a tentação, no deserto, ao citar passagens da Escritura que deixavam bem claro o primado absoluto de Deus e da sua Palavra.

4. Amanhã sai para combater Amalec

a) Lutar é vigiar

Jesus passou pelas tentações e venceu-as. Desta forma, ele nos ensinou que a vida cristã é em si mesma, uma luta séria, perigosa, cujo fim é incerto.
Por isso a Igreja, durante o tempo litúrgico chamado de Quaresma, empenha-se em fazer com que todos recuperem o sentido da vida como defesa contra a tentação, lembrando a todos o papel da vigilância. No Novo Testamento, podemos perceber que volta a todo instante a exortação: "Vigiem". Em concreto, vigilância significa sobriedade, abstinência, capacidade de renunciar àquelas coisas que nos tornam obtusos e surdos à palavra de Deus, pondo-nos a salvo das tentações.
O período da Quaresma, de fato, é constituído, todo ele, por uma tensão rumo ao mistério central da Páscoa, mistério ao qual nos associamos com o batismo, e que pode penetrar sempre mais profundamente em nós através da conversão cotidiana.

b) As práticas da vigilância

As obras sugeridas pela Igreja dentro do caminho da Quaresma, as obras que exprimem vigilância, o estado de alerta diante do inimigo, são a oração, a escuta prolongada da Palavra, sobretudo na liturgia, o silêncio, o recolhimento, o jejum, e a ascese.

c) O jejum

Nós temos uma certa dificuldade com o jejum, estranhamos até a palavra, e talvez esta dificuldade tenha algo a ver com um texto do profeta Isaías:
"Não é jejuando dessa forma que farão chegar lá em cima a voz de vocês. Vejam! O jejum que eu aprecio, o dia em que uma pessoa procura se humilhar, não deve ser desta maneira: curvar a cabeça como se fosse uma vara, deitar de luto na cinza... É isso que vocês chamam de jejum, um dia para agradar a Javé?
“O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente" (Is 58,4b-7). O profeta faz uma advertência ao povo, mostrando que o Senhor deseja o jejum da caridade.
Sem dúvida alguma, o objetivo do jejum é o amor, a caridade em prol de todos os irmãos, porque a caridade é a plenitude da vida cristã, e o seu exercício é um modo esplêndido de preparar-se para a Páscoa.

d) A luta é o jejum

Mas também é preciso dizer que o jejum corpóreo, físico, tem uma importância real, embora subordinada. Santo Ambrósio escreveu: "Virá para nós o dia da festa, e ele já está próximo... Nossa vitória é a cruz de Cristo, nosso triunfo é a Páscoa do Senhor Jesus. Mas Cristo combateu para vencer não porque tivesse necessidade defender-se, mas para nos ensinar o modo de enfrentar o combate. A nossa luta é o jejum. O Salvador também jejuou, ... e sujeitou-se a isto a fim de romper os laços do tentador". Santo Ambrósio continua ainda, noutra parte do sermão, exaltando o significado ascético e cristão do jejum: "Grande é a força do jejum! É uma luta tão maravilhosa, que o ato de jejuar compraz ao próprio Cristo; é tão eficaz, que eleva o homem até o céu... Que coisa, de fato, é o jejum senão a substância e o retrato da vida celeste? O jejum é a refeição da alma, é um alimento espiritual, é a vida dos anjos, é a morte do pecado, é o aniquilamento dos delitos, é um meio de salvação, é a raiz da graça, é o fundamento da caridade" (do tratado Elias e o jejum, nn. 1.2.~).
Diante desta exortação, podemos perguntar-nos: que significado tem exatamente o jejum para nós, e no que ele consiste, embora a Igreja, em nossos dias, tenha reduzido muito as rigorosas exigências do passado?
Devemos recuperar, porém, o significado que o jejum deve ter para nós, que é propriamente a sua utilidade ascética, como um exercício de santificação.
O jejum pode ser aplicado a muitos elementos da nossa vida moderna diária, e cada um de nós pode vivê-lo com simplicidade.
Se acrescentarmos a isto os momentos de recolhimento, de solidão, de oração mais intensa, veremos que todas estas coisas se relacionam muito bem, e que elas vão criando em nós, paulatinamente, o gosto pela disciplina do espírito, formando o ambiente, o contexto adequado para que tenhamos uma autêntica vida espiritual.
Uma disciplina que tempera o homem interior e o torna capaz, pronto para enfrentar as lutas da vida, e fazer dela um ato real de serviço e de disponibilidade que, na Igreja, pode chegar até a perseguição e o martírio.

*A esperança

1. Como Moisés combate?

a) Moisés sobe a montanha com o cajado na mão

“Eu ficarei no cimo a colina com a vara de Deus na mão”. (Ex 17, 9)
Estamos num momento em que todo homem que puder empunhar uma arma é importante. O inimigo é encarniçado e está defendendo um território que conhece e Moisés escolhe subir a montanha com o cajado de Deus!
Moisés fez uma escolha. Não significa que ele está fugindo da batalha, mas que ele escolheu uma maneira de combater. Ele está disposto a enfrentar mais uma vez os inimigos do povo de Deus e de suas promessas, como o fez no Egito contra o faraó. O cajado é o mesmo.
Sobe a colina para ficar mais perto de Deus, para ver melhor o combate que se desenrola, para se arrancar da planície e buscar as “coisas do alto”. Sim, para rezar é necessário subir ao “andar superior”, abandonar o conforto da planície e mudar a visão que se tem das coisas. É fundamental: deixar que Deus nos mude, nos molde.
Este “subir” de Moisés, tem ecos daquela outra vez que ele “subiu” à montanha e teve a “a experiência” da revelação de Javé na sarça ardente. Essa experiência ensinou “o caminho” que dá acesso à intimidade de Deus.
Josué na planície se atraca com os amalecitas numa luta mortal e Moisés também se empenha no combate. A luta de Josué é na atividade que exige permanente esforço. A luta de Moisés é na oração.

b) Moisés escolhe rezar

Moisés escolher rezar porque a experiência de Deus, que ele faz a partir da sarça ardente e continuada na passagem do Mar Vermelho e no deserto, o leva a essa atitude. Não por desespero ou “porque já tentei tudo, agora só falta rezar”, mas porque ele está convicto em seu coração que é esta a escolha certa, é esta a prioridade para aquele momento.
Tomando o texto de Êxodo capítulo 3, podemos observar os elementos essenciais desta experiência fundamental :

1.voltar-se para Deus – conversão. Esta é a atitude fundamental da fé. Deus é mais. Não olhar para as nossas misérias, mas para a misericórdia. Não ficar apegado as nossas capacidades e valores, aos nossos defeitos e pecados. Deus nos chama: “Convertei-vos, pois aproximou-se de vós a Misericórdia” (cf. Mateus 4, 17 - citação livre) Converter para a fé e por causa da fé.
2.tirar as sandálias – purificação e despojamento. Ao nos voltar para Deus, precisamos purificar nossos corações, nossa intenções. Purificar-nos de nossos pecados. Abandonar nossos apegos, “adquirir a pérola preciosa”, A conversão implica em purificação: “Bem aventurados os puros de coração porque verão a Deus”. (Mateus 5, 8)
3.aproximar-se – intimidade. Fazer-se próximo de Deus. Só é próximo de Deus quem ama verdadeiramente. Ama a Deus verdadeiramente quem está disposto amar o outro, como o Bom Samaritano.
4.Deus se revela – Não o Deus que eu quero, mas o Deus que se revela como é. Não um Deus das facilidades e dos acordos, mas sim um Deus verdadeiro que se revela e convida ao relacionamento e sempre é presente na história.
5.obediência – realizar a vontade de Deus. Moisés havia aprendido que não basta ter bons sentimentos e belos projetos. É necessário fazer conforme a vontade de Deus, e isso requer obediência.
6.“Aqui estou”, disse Moisés. Disponibilidade. É esta resposta que Deus espera de Moisés. Retirado todos os obstáculos (aqui Deus luta com Moisés), Moisés se dispõe. Permitir que Deus realize através do instrumento por Ele escolhido.
2. O que sustenta a oração de Moisés?

“Ora, as mãos de Moisés estavam pesadas: tomando então uma pedra, puseram-na embaixo dele e ele se sentou: Aarão e Hur sustentavam-lhe as mãos, um de um lado e o outro do outro”. (Ex 17,12)
Os Padres da Igreja ensinam-nos, que aqui encontramos os três elementos que sustentam toda oração e que sustentaram a oração de Moisés: a pedra, Hur e Aarão.

a) A pedra: a Esperança

A Fé não basta para a intimidade com Deus, embora seja a primeira e fundamental comunicação com ele. Mais do que pela inteligência, é pelo coração que alcança esta intimidade perfeita, porque o Espírito Santo é Amor, e porque, como ensina Tomás de Aquino, nesta vida é melhor amar a Deus do que conhecê-Lo e é mais unitivo o amor do que o conhecimento. Para que a vontade do homem se ponha em íntimo contato com Deus, recebe as virtudes da esperança e da caridade.
Pela esperança tendemos ao fim supremo da vida, à felicidade sobrenatural do céu, que é a participação da própria felicidade de Deus; ou, para exprimi-lo melhor, pela esperança tendemos a Deus, nosso fim, nosso bem, nossa felicidade; e tendemos a ele não com a incerteza e o vaivém das esperanças humanas, mas com a segurança inquebrantável de quem se apóia na força amorosa de Deus.
O termo da esperança está na eterna e plena posse de Deus, porque temos a divina promessa que não engana, porque primeiro passarão o céu e a terra que a palavra de Deus. Com a esperança, levamos na alma a caridade e temos mais do que a promessa, pois possuímos em substância o Bem que possuiremos plenamente no céu.
O Espírito Santo, nosso Hóspede, nosso Dom, é o penhor de nossa herança, como o diz são Paulo: "...fostes selados pelo Espírito da promessa, o Espírito Santo, que é o penhor da nossa herança,...” (Ef 1,13-14).
Que esperança segura é aquela que tem como penhor a posse do próprio Bem que se espera gozar plenamente! Que felicidade trazer na alma o germe da glória, a substância do céu! Nossa vida espiritual é verdadeiramente a vida eterna. Por isso Jesus nos disse: "Quem crê em mim tem a vida eterna" ( Jo 3,36). Não diz terá, mas tem; porque, no fundo, a vida da graça e a vida da glória são a mesma vida sobrenatural; em germe, pela graça; em sua plenitude, pela glória. Por isso também a Igreja nos ensina que ao morrer, nossa vida espiritual não se perde; ao contrário, se transforma: "A vida dos teus fiéis é mudada, não tirada" ( Pref. da Missa de Defuntos).
Da firmeza com que esperamos a vida eterna deduz-se, como legítima conseqüência, a firmeza com que devemos esperar todos os meios necessários para alcançar a felicidade. Não caminhamos ao acaso em nossa peregrinação para o céu: a fé nos indica o rumo certo, a esperança nos dá um apoio inquebrantável; a fé nos faz viver de luz, a esperança nos faz viver com segurança.
Para compreender a importância prática da esperança, notemos que o mais comum e o mais perigoso obstáculo para alcançar a perfeição, é o desalento: as faltas, as tentações e a aridez que se encontram em toda a vida espiritual produzem o desalento nas almas e este apaga o fervor, esgota a generosidade e detém a marcha para a perfeição.
Enquanto houver esperança, qualquer obstáculo pode ser vencido, qualquer sacrifício se torna fácil, qualquer luta é coroada pelo triunfo; mas quando o desalento invade a alma esta, sem energia e sem apoio, facilmente se detém, se extravia e se abate.
Por isso ensina Tomás de Aquino que, embora o desespero não seja o maior dos pecados, pois que a infidelidade e o ódio a Deus considerados em si mesmos, são mais graves do que o desespero, pois se opõem à fé e à caridade, de nossa parte, o desespero é o mais perigoso dos pecados, e cita as palavras de santo Isidoro: "Cometer um pecado é a morte da alma; mas desesperar é descer ao inferno".
E quanto mais progredimos na vida espiritual, mais robusta deve ser a nossa esperança, porque são mais terríveis as lutas, maiores os sacrifícios e mais altas e desconhecidas as operações íntimas da graça.
Mas convém assinalar as relações que existem entre o Espírito Santo e a virtude da esperança. O divino Espírito não é somente luz e fogo, é também força: é a unção espiritual que dá vigor aos que lutam na terra, a virtude do Altíssimo, o Dom do Pai Onipotente.
Para consagrar-nos a ele não basta que nossos olhos não se afastem da luz e que nosso coração se abra às santas efusões do seu amor, mas é preciso também que nos apoiemos em Sua estabilidade que, como a Esposa do Cântico dos Cânticos, subamos ao deserto da nossa miséria pelo caminho luminoso da fé, embriagados com as delícias da caridade e apoiados, pela esperança, no braço do Amado, no braço do Amor.
Se a fé nos dá a intimidade da luz com o Espírito Santo e a caridade nos enriquece com a do Amor, a esperança nos põe em comunhão com a força do Altíssimo, e abre a nossa alma a todos os auxílios sobrenaturais dos quais o Espírito é a fonte viva e inesgotável.
A esperança é uma capacidade sobrenatural para receber o Espírito Santo, o Deus que auxilia e santifica, com todos os divinos arroios que brotam dessa fonte; e depois que ele mesmo satisfez essa capacidade da nossa alma, consuma nossa esperança, porque é o Espírito da promessa e o penhor de nossa herança, como ouvimos dos lábios de são Paulo.
A esperança se traduz na paciência e na perseverança que significa constância enquanto da provação, ou luta, perdura. Palavras densas que marcam o caminho da esperança que não ilude (Rm 5,5).

b) A paciência (Hur)

Paciência é uma palavra que tem a mesma raiz que “sofrer”, “suportar”, no latim “pati”. Ao contrário do que pensamos, não significa a “capacidade de esperar”, tal como nós vemos hoje, mas sim a capacidade de sofrer, de suportar, sem alterar o interior.
Santa Teresa de Jesus, na sua conhecida oração, afirma que “a paciência tudo alcança”. Em que sentido podemos tomar esta afirmação? Sendo a paciência a capacidade de sofrer ou suportar as dificuldades que se apresentam, ela não deixa de ser também uma manifestação de fé na providência de Deus, que opera sempre em favor daqueles que O amam ou, de uma outra forma, daqueles que Ele ama.
“Filho, se te dedicares a servir ao Senhor, prepara-te para a prova. [...] Tudo o que te acontecer, aceita-o, e nas vicissitudes da tua pobre condição sê paciente, pois o ouro se prova no fogo e os homens eleitos, no cadinho da humilhação. [...] Ai de vós que perdeste a paciência: o que fareis quando o Senhor vos visitar?” (Eclesiástico 2, 1. 4-5. 14) Suportar os sofrimentos advindos do serviço ao Senhor, nada mais é do que uma prova de esperança na promessa: “Vós que temeis o Senhor, tende confiança n’Ele e a recompensa não vos faltará. Vós que temeis o Senhor, esperai bens, alegria eterna e misericórdia”. (v. 8-9)
A impaciência nos leva a desistência, que é o primeiro passo para o fracasso da vida cristã. A falta de empenho na prática das virtudes, o sentimento de “não vale a pena tanto esforço e sacrifício”, a valorização das coisas mundanas e temporais, de maneira excessiva, a desvalorização das coisas espirituais, a secularização, são sentimentos advindos da desistência.
Consideremos Moisés no alto do monte a observar o que se desenrola no vale. As tropas inimigas mais treinadas, o vai e vem das investidas, que hora dão vitória a Josué e hora vencem os amalecitas, o cansaço, a imprevisibilidade dos resultados e nada disso perturba o interior de Moisés, porque sua oração está firmada na esperança de que o Senhor há de vencer: “Nada te perturbe, ....a paciência tudo alcança....Só Deus basta.” (Santa Teresa de Jesus).
É assim que Moisés luta, uma luta que pode ser a nossa diante de tantas e tantas investidas, diante do futuro que se apresenta tão incerto, da aparente vitória dos que não crêem, diante das forças arregimentadas contra o Evangelho e os homens de bem.(Atos 4, 25s).
A paciência que se espelha naquela que o Senhor tem conosco (2Pe 3, 8-15), que “sofre” a “dureza de coração” dos homens, ao apelo constante de amor e conversão.

1.A perseverança (Aarão)
A raiz da palavra perseverança é a mesma da palavra “severo”, que significa inflexível, ou seja, não abrir mão, não se afastar dos princípios e opções estabelecidos, apesar das oposições e tentações ao mais fácil, a acomodação.
Perseverança que significa constância enquanto da provação, ou luta, perdura. Que é a qualidade daqueles que se mantêm em pé, estáveis. È o estado de estabilidade que tanto se procura.
A perseverança evoca o sentido de resistência, “endurance”, endurecer, tornar rijo, sólido. Por isso tem seus fundamento, quanto virtude, nas convicções de fé, nas experiências interiores, nas provas sucessivas a que somos submetidos. Jesus Cristo, ao anunciar o princípio das dores, afirma : “Aquele porém que perseverar até o fim, esse será salvo”. (Marcos 13, 13b)
O perseverar implica, sobretudo, numa experiência de Deus, experiência profunda e transformante, como nos referimos anteriormente. O conhecimento intelectual de toda a doutrina cristã, em sua sabedoria e justiça, em sua elevada ética e moral, é insuficiente para produzir perseverança. Ela está muito mais ligada ao coração, ao patamar da experiência espiritual, do que a racionalidade pura e simples, embora não dispense o conhecimento do conteúdo da fé.
Consideremos, mais uma vez, Moisés no alto do monte. O cansaço, o calor, o ruído que sobe do vale, o clamor das armas em choque, a confusão da batalha, a poeira que se levanta e impede que se tenha uma visão clara, a falta de notícias do que está ocorrendo...Moisés permanece firme. Penso que é correto afirmar que em seu coração vêm as lembranças: a sarça, o Mar Vermelho, a coluna de fogo, as nuvens, o maná, as águas amargas... Sim, é também nesse conhecimento que Moisés se firma. Deus agiu de maneira poderosa e visível anteriormente, agirá também agora.
A luta em que Moisés se empenha, é a nossa. No dia a dia, quando as coisas parecem confusas, que nos falta visão, que o ruído das contingências e urgências da vida não nos permitem escutar, quando o embate nos cansa, lembrar que “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Único” (cf. Jo 3, 16) como prova desse amor.

3. Moisés não está só

Moisés sobe a montanha com Hur e Aarão.. A intercessão se faz em comunidade.
Aqui nós encontramos eco no ensino de Jesus: “Em verdade ainda vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que queiram pedir, isto lhes será concedido por meu Pai que está nos Céus. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles”. (Mateus 18, 19 – 20)
Estes homens estão de acordo naquilo que pedem porque estão unidos à uma mesma vontade, porque seus corações estão todos no mesmo lugar. Não querem construir “um nome” para si, como em Babel, mas buscam a Glória de Deus e o que pedem é que o Senhor realize sua vontade, expressa tantas vezes na Aliança.
Moisés, Aarão e Hur se apresentam diante de Deus como o Povo por Ele escolhido. De uma certa forma Aarão e Hur, ao segurarem os braços de Moisés, o apresentam a Deus e Moisés pede o que está no coração de todos eles.
Somos a Igreja, mais de dois reunidos no nome do Senhor. Ao apresentarmos ao Pai seu próprio Filho, Ele pede o que está em Seu Coração e também no nosso: Misericórdia. Eis o segredo da intercessão, ter em nossos corações aqueles desejos que estão no Coração de Jesus. É Ele nosso intercessor, e não existe outro que possamos apresentar diante do Pai, para que fale por nós .Nisto consiste o estar reunido em Seu Nome.
Para tanto é preciso que o Espírito nos ajude, “pois não sabemos o que pedir como convém; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis, e aquele que perscruta os corações sabe qual o desejo do Espírito; pois é segundo Deus que ele intercede pelos santos”. (Romanos 8,26 –27)
É o Espírito de Cristo que habita em nossos corações. Ele está no Cristo e em nós, portanto conhece o desejo daquele Coração e busca imprimir seu desejo nos nossos.
Na missa rezamos: “Corações ao alto!” Elevar os corações, arrancá-los da planície, abandonar as coisas que são baixas. “Buscar as coisas do alto”, nos ensina São Paulo. Para tanto é necessário purificar nossos corações, porque é daí “que procedem más intenções, assassínios, adultérios, prostituições, roubos, falsos testemunhos e difamações”. (Mateus 15, 19)
A purificação do coração exige uma contrição verdadeira, que significa arrependimento sincero e firme propósito que é uma radical conversão.
Todo trabalho de purificação do coração deve começar pelo reconhecimento, à luz divina, da nossa realidade pecadora. Só assim poderemos sair do templo justificados, dizendo com toda sinceridade de nosso ser, à luz divina: “Tem compaixão de mim, Senhor, porque sou um pobre pecador”, como o publicano do Evangelho. (Lucas 18, 9-14)
“Bem aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mateus 5, 8), ou de uma outra forma, serão íntimos de Deus. Somente os puros de coração podem falar a Deus “face a face”, “como a um amigo”, esta pureza de coração que é exigida para que exista uma verdadeira comunhão, uma verdadeira concordância no pedir. Eis a experiência de Moisés no alto da montanha, juntamente com Hur e Aarão.

*Moisés reza e Josué luta

1. Contemplativos na ação

a) Considerações sobre Êxodo 17, 8 – 18 (ver Plano Geral do Retiro)

Estamos diante de um texto muito conhecido e que para nós tem um significado importante: trata-se da identidade da Associação Javé Nissi.
O fato de luta contra Amalec nos leva a indagar:

  • O que Moisés faz? O que Josué faz? Moisés reza e Josué luta.
  • E se Moisés não rezasse ou se Josué não lutasse?

Estamos diante dos dois aspectos da vida cristã: a oração e a ação

b) O desafio a ser respondido

Vivemos num mundo em que é muito fácil fazer uma dicotomia entre a reflexão e a ação. Caímos, assim, num intelectualismo ou num ativismo que não conduzem a nada: uma reflexão alienada e desengajada ou uma ação irrefletida, sem fundamento e sem sentido crítico.
Essa dicotomia aparece também na Igreja: um refugiar-se somente no espiritualismo ou na ação pastoral quando, na realidade, ambos deveriam interpenetrar-se e completar-se.
Santo Inácio desejou que seus companheiros fossem fundamentalmente "contemplativos na ação". É também esse o ideal da vida cristã e de quem deseja vivenciar a experiência da vida cristã. Superar a dicotomia e entrar no processo dialético da ação-reflexão é um desafio para todos aqueles que pretendem tomar consciência da realidade, engajando-se numa permanente renovação.
Uma é ponto de referência para a outra, ocasião de revisão, enriquecimento, questionamento, relativização e crescimento e vice-versa. Oração e apostolado se inter-relacionam e complementam. A ação pastoral brota da oração, é por ela questionada, nela reencontra seus critérios e revê sua opção. A ação, por sua vez, prova a oração, enriquece-a e questiona-a.

c) Nossa resposta

O “contemplativo na ação” é aquele que:

  • Permanece aberto à revelação do Senhor e ao contexto em que está inserido
  • Crê na presença transformante de Deus na história dos homens
  • Procura perceber (discernir) seus apelos hoje
  • Compreende que sua atitude fundamental de ser a de “ouvinte da Palavra”, alguém que escuta atentamente. Sendo que escutar é acolher no coração e aplicar no concreto da vida, engajando-se em suas propostas.

2. Necessidade fundamental

a) Experiência de Deus

Para atingirmos tal ideal precisamos buscar uma experiência profunda de Deus, profunda e transformante.
O encontro pessoal com Deus, em Jesus Cristo, leva o homem a inserir-se positiva e plenamente na História da Salvação, que é a história do homem salvo e reconciliado em Jesus Cristo, Filho e Irmão. É buscar uma inserção cada vez maior e mais profunda nos grande horizontes da Revelação: o trinitário, o cristocêntrico e eclesial.

b) Dois processos

Na busca desta experiência fundamental, distinguimos dois processos: da interiorização e do discernimento.
Processos que são interligados. Pelo primeiro, através da oração procuramos alcançar os pensamentos (no sentido de Sto. Inácio: as moções espirituais - muito menos que idéias - trazem consigo sugestões que impelem imediatamente a agir) e penetrar os mistérios, presentes em nosso interior.
A partir da interiorização chega-se ao segundo processo, o discernimento, quando perante esses pensamentos, descortino e analiso meus movimentos interiores, minha realidade e história, no jogo constante da gratuidade divina e liberdade humana.

c) Por que precisamos da interiorização

Para conhecer alguém é preciso ir mais além de seu exterior. Para conhecer Jesus Cristo é preciso interiorizá-Lo. O conhecimento é dado pela capacidade de amar, ou seja, pelo amor.
Pode-se distinguir três níveis na pessoa humana: o periférico, o psicológico e o espiritual.
O periférico é o mundo dos sentidos, das coisas. Nosso mundo é muito exteriorizado. Se vivemos na periferia "fazemos coisas" simplesmente. As pessoas tornam-se "números".
O nível psicológico é mais profundo. O homem reflete sobre a própria personalidade e a do outro, Revela-se e aceita a revelação do outro na amizade. No mundo psicológico dão-se os "bloqueios" para quem não se abriu à amizade
O espiritual é “o mundo interior”, da totalidade, de "coração” no sentido bíblico. Aí se dá a revelação de Deus.
Viver a dimensão espiritual da vida não significa rejeitar os níveis anteriores e sim integrá-los, assumindo-os na dimensão do Senhor.
Santo Inácio dá grande importância à interiorização, insiste que o exercitante tenha mais tempo para "sentir e gostar as coisas", já que "o que sacia e satisfaz á alma não é o muito saber, mas o sentir e saborear as coisas internamente". O “sentir" e o "saborear" estão no plano da vivência, da transformação da vida.
O importante é interiorizar os princípios básicos fundamentais. Não se avalia a oração pelo número de idéias, mas pela intensidade das moções de Deus.
O processo de interiorização pretende criar uma estrutura interna profunda que nos dê uma liberdade que, em última análise, é nossa capacidade de nos situarmos como pessoas no mundo de hoje.

d) Por que processo de discernimento


Cada um de nós é uma realidade e possui uma história. É através do discernimento que se vai adquirindo sensibilidade às experiências internas e à sabedoria, que é dom do Espírito.
Assim, o discernimento não é um ato isolado, mas uma constante, uma atitude de vida. Supõe que se tenha como base da vida não critérios teóricos, mas um critério existencial: a Pessoa de Jesus Cristo.
Quem vive em clima de discernimento age segundo as convicções e não ao sabor das sensibilidades, ou paixões. A fé se situa no plano das convicções.
Na linha da sensibilidade deve-se agir suavemente: aceitar que mudamos e que temos dificuldades de caminhar.
No plano das convicções deve-se agir fortemente: é preciso ter pontos fortes que fundamentam nossas convicções. É preciso entender a vida humana baseada em suas experiências. Deus respeita nossa liberdade, mas suas exigências são radicais.
No discernimento o “sentir” não é algo simplesmente afetivo. Esta palavra, para Santo Inácio, tem dois significados:

  • compreender, entender (que supõe um exercício intelectual, não puramente humano, mas um esforço de inteligência que supõe a iluminação da Graça)
  • experiência espiritual (ressonância interior do mundo sobrenatural, que supõe muitas vezes uma experiência afetiva que se traduz numa disposição vital)

 
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